Primeiro capítulo
A proposta de Ludwig (como tudo começou)
Nunca pensei em ser dondoca.
Sempre vi o trabalho como algo natural. Filha
de contador, filha de professora, o ciclo formatura / carteira de trabalho
/ vestido de noiva / aniversário de filho era para mim inevitável
como respirar. Meus irmãos escolheram megabytes ou índices
de liquidez corrente. Eu escolhi Machado e Graciliano. E pensei desse jeito
até um mês de dezembro. Então começou minha aventura,
que você vive a partir de agora.
Faltavam vinte e dois dias para minha formatura quando saí
pelo portão principal da Universidade. Estava atrapalhada por dois
Dom Casmurro de exemplares grossos que tinha emprestado na biblioteca do
Instituto de Humanas. E mais três Os Bruzundangas, e mais um Bom Crioulo.
O Colégio C... estava com um programa de ensino de literatura em pequenos
grupos. Eu entusiasmada com meu estágio lá.
Carregada de realismo e naturalismo mal percebi
o carro com velocidade de tartaruga. Seguiu-me desde a esquina da Pedro Gerheim
até um par de ruas depois. Não dei importância.
E nem o percebia no dia seguinte. Meninos de
dezesseis podem ser apaixonados por Machado mas são mais ainda por
carros. Discutíamos na frente do colégio se Capitu traiu e
um dos rapazes apontou o Mercedes prateadinho. O setor masculino o reverenciou
como manifestação do Olimpo, as meninas torceram o nariz. O
motorista pareceu intimidado. Arrancou, evitou passar em frente a nós,
vidros levantados.
Encontrei-o parado na direção da
favelinha onde dava aulas de pré-vestibular como voluntária,
meia dúzia de horas depois. Não se moveu.
Dia seguinte mandei um de meus alunos como espião
e ele informou que lá estava o alvo, como chamou. Dispensei a turma
dez minutos mais cedo. Plano feito. Saí pela entrada lateral, dobrei
a esquina e lá estava, porta aberta, sem ninguém, em frente
a uma birosca.
Gente há que acredita em sorte. Eu creio
em intuição. Intuí que eu não estava ameaçada.
Se alguém ameaçava, era eu. Mineiros são loucos por
branquinha. E o dono da birosca era daqueles chatos, mostrava o litro e insistia
e insistia. O comprador ou vítima dizia não obrigado com um
português atolado. Quis sair, deu de cara comigo e minha vida nunca
mais foi a mesma.
Era um palmo mais alto que eu. Os olhos azuis
e a cabeça comprida me bateram na hora: estrangeiro. Jeans e camiseta
que nele tinham a elegância de smocking. Olhos de menino pego roubando
o doce de goiaba. Por um par de segundos olhamos um a cara do outro. Ofereceu-me
a mão com a naturalidade de quem se apresenta à Rainha. Disse:
Ludwig! Ri.
- Na Faculdade, no colégio, no voluntariado.
Está me seguindo?
Afagou coceira imaginária na nuca. Não
conseguia me sustentar o olhar.
- Sim – disse ele.
- Por quê?
- Que tal se disser que acho você bonita?
(Apelando para minha vaidade! Devia se envergonhar!)
- Vai comprar a branquinha do homem?
Duas notas pequenininhas trocaram de mãos
e Ludwig arremessou o litro numa lixeira dois passos depois. Trocamos oficialmente
de nome e telefone. Recusei a oferta de carona. Agradei ao recusar, gostou
de minha cautela.
Todo namoro é um ritual. Bares na subida
da São Mateus, Chopin e Beethoven no Cine-Theatro Central, caminhadas
ao mirante do Morro do Imperador. E as apresentações às
famílias ou melhor à minha, pois a de Ludwig está a
uns oito ou nove mil quilômetros de distância. Nasceu em Hannover
há quarenta anos, há quase dezenove veio para cá e não
quis mais sair. Dirige a fábrica com mão suave. Apaixonado
por polias e voltagens, ao voltar do trabalho esquece as máquinas,
uma das coisas que me fascina nele.
Nosso primeiro beijo foi três dias depois
de começarmos a namorar. E um par de semanas depois sua mão
deslizou pelo meu ombro, seguiu a curva, escolheu o caminho por baixo do
top verde-enjôo, parou sobre o bico e deu um par de voltinhas. Aos
catorze anos eu já decidira que os sutiãs eram um trambolho
desnecessário e a mão dele se aproveitou de tal decisão.
Não me incomodei nem um pouquinho-quinho.
Semanas seguintes tops e microblusas também
se foram revelando demais. Na verdade só uma tanguinha cor-de-rosa
com duas inevitáveis estampas de coração me separavam
da roupa de Eva quando ele pronunciou a palavra casamento.
Senti a pancada. Nunca pensara. Era como uma
roupa cujo manequim não cabe, você não compra e não
pensa sobre.
Perguntei se queria toda a verdade. Se queria
casar comigo, que fosse sem zonas de sombra. Ele disse Sim. Revelei dois
namoricos da pesada. Contei de uma menina de dezoito num motel com o estúpido
nome de Styllus a olhar mais curiosa que excitada o falo muito duro do coleguinha
de Lingüística Românica. E que essa foi a primeira de quatro
com o primeiro namoradinho, e depois teve mais cinco com o segundo, cada
uma revelada com detalhes de radiografia. Falei de calcinhas sendo tiradas
em bancos de fuscas, de laços de calções masculinos
sendo desfeitos com os dentes.
Calei. Esperei a tríade vagabunda-cadela-vadia
seguida da partida-para-nunca-mais. Por um par de milênios não
abriu a boca. Mas abriu. E disse:
- Na terceira transa com o primeiro namorado,
afinal você chupou ou não o rapaz?
Minha vez de abrir a boca, de espanto. Num pedaço
de segundo repassei tudo e lembrei que esquecera aquele detalhe. Ludwig me
ouvira como um aluno de declinações do latim. Derramei o balde,
verdade em excesso:
- Chupei e muito. Não era pequeno.
É agora, pensei. Tinha sido noiva por
trinta e sete minutos.
A tríade não veio. A mão
tremida engatou a marcha. Deixou-me em casa. Deu a volta para abrir-me a
porta, cavalheiro. Eu me roía por ter feito sofrer uma pessoa a quem
queria bem. Para me castigar, encarei-o. Caí o queixo. Não
vi sofrimento. Não havia sofrimento.
Havia felicidade.
Pensei que a espera seria pelo restante dos séculos.
Mas foram só três dias. Ludwig me ligou. Tinha uma surpresa,
voz ansiosa de vestibulando devorando lista de aprovados.
A surpresa era uma caixinha. Abriu-a, duas alianças
dentro. Meu lado Cinderela deu um pulo. Já nele não havia euforia,
havia ansiedade como se o vestibulando agora chegasse às últimas
vagas sem ver seu nome. Ele disse que agora era a vez dele ser sincero.
Começou: amava-me, queria igreja, véu,
grinalda, e que eu fosse fiel.
- Serei – disse eu. – Nunca terei outro.
Engasgou, tossiu, disse que não era bem
aquilo. Ou melhor, era sim, mas. O conceito dele de fidelidade era: eu sempre
faria amor com ele, só com ele... e engasgou de novo, ...mas o corpo
poderá ser de outro homem.
Demorei uns cinco segundos para juntar os pedaços.
- Você quer que eu faça amor com
outros homens?
- Não, não. Comigo.
Relaxei.
- Mas através do corpo de outros homens.
Tensionei de novo. Detalhou: Não precisa
ser na minha frente. Pode ser longe de mim, desde que me conte tudo. E não
precisa ser com outro homem. Podem ser mulheres, ou casais. E quem vai fazer
amor seremos nós dois. Fidelidade total. Não dê importância
aos outros homens ou seja lá quem. São corpos que utilizaremos
para o nosso prazer. Mas amor, só entre nós.
Popó e Maguila me acertaram juntos na
cara. E Ludwig ainda tinha um segundo pedido. Ele sabia o quanto eu gostava
de ensinar. Disse que eu poderia pegar algum trabalho voluntário.
Mas ele ganhava o suficiente mesmo que fôssemos duzentos, quanto mais
dois. Eu dedicaria meus dias às compras e ao amor. Essa seria a minha
vida com ele.
Teria aplicado um tapa de mão cheia em
qualquer pessoa do Planeta Terra que não ele. Naquele momento eu descobri
que amava Ludwig. Saí em silêncio.
Tentei voltar à minha vida. Colégio,
voluntariado, família, leitura de Drummond, planos de mestrado. Evitava
olhar as fotos de formatura. Lá estava Ludwig, feliz, nós felizes,
eu com a ridícula beca de babador.
Ele era uma página em minha vida que eu
tentava virar mas parecia colada. Particularmente tentava virar a página
da proposta. Repetia a palavra absurdo. Absurdo, absurdo. Como ele podia
me fazer uma proposta absurda daquelas?
Bronzeado de surfista, músculos de astro
do Big Brother, o garotão pediu meio balde de morango com chocolate
na sorveteria na Rio Branco. Uns dezenove anos, por aí. Eu a duas
mesas de distância, delirei. Marido permissivo, chave do Vectra na
mão, eu passaria um plá, o levaria para casa, em frente à
sagrada cama de casal eu faria cair esse jeans e o resto, só uma coisa
se ergueria, muito rígida, e meu marido aparecendo de surpresa, pasta
na mão, rindo a viver. Absurdo... era isso que Ludwig queria? O garotão
saiu e no mesmo lugar veio uma loura. Jeitão de separada e era separada
mesmo, ouvi-a recitar ao celular, “meu ex-marido”. Óculos escuros,
pediu só sabores diet. Delirei de novo. O garotão ao lado da
cama desapareceu e se transformou nela, cabelo solto, óculos jogados
de lado, abrindo a blusa como stripper me revelando a inexistência de
sutiã. Nós duas. E o garotão se rematerializou e abraçou
a nós duas. Nós três. Engasguei do milk-shake de baunilha
com adoçante.
Decidi que era fantasia e que fantasia não
paga pedágio. Delirava em tudo. Em casamentos me imaginava acordando
abraçada de recheio aos corpos nus da noiva e do noivo. Imaginava amigas
com olhos em faíscas me convidando a uma lua-de-mel de fim de semana
com o marido, ou com elas mesmas. De absurda a proposta foi passando a estranha,
de estranha a incômoda, depois só meio isso.
Recebi rosas cor-de-paixão e um bilhete
perfumado: “Amo-a”. Devolvi o bilhete com uma palavra rabiscada ao lado:
“Também.”
Casamo-nos numa igreja de formato estranho em
Juiz de Fora.